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Wednesday, August 20, 2008

Além do corpo: a carne como ficção cientifica

As linhas do imaginário são verdadeiras linhas de vida.
Gaston Bachelard

- E o que você me conta de novo sobre seu corpo?
- Nada! Não quero mais desse corpo que não presta, que se estraga, que fica doente, que atrapalha meu pensamento e dificulta a minha própria razão... Não sou mais um corpo! Cogito ergo sum: Sou um puro espírito, um ser inteligente. Adeus corpo! (Le Breton, 1999)
Esse discurso sobre o corpo, que parece ser extrato de um romance de ficção científica é o tema central do novo livro de David Le Breton. Só que David Le Breton não é romancista, mas antropólogo especializado nas questões ligadas à corporalidade humana e autor de mais de dez ensaios relativos ao corpo. Para David Le Breton, o indivíduo, na sociedade contemporânea, pensa o corpo como um material, como um simples suporte e veículo da pessoa, assim andando e pensando, ele parece se afastar cada vez mais do seu próprio corpo e concebê-lo como uma matéria imperfeita, corrigível e finalmente dispensável. Le Breton, nesse livro sobre o corpo na cultura ocidental pós-moderna, mostra até que ponto o novo imaginário do corpo revela a contemporaneidade do dualismo cartesiano e convida o leitor a segui-lo na sua "antropologia das aventuras do corpo dissociado da pessoa, percebido como um material acidental, infeliz e moldável" (1999: 21). Ao longo dessa viagem de iniciação, Le Breton demostra como esse grande desprezo pelo corpo, essa vontade de corrigir e eliminar o corpo, está principalmente veiculado pelas tecno-ciências (medicina, genética, robótica, informática...) que pretendem liberar o homem do seu corpo, mudar a condição humana, declarando o fim do corpo e das suas imperfeições. Esse mito da saúde perfeita, analisado por Lucien Sphez, alimenta o discurso científico atual e nos anuncia uma profunda mutação epistemológica: pensar um homem sem corpo.
A partir das descobertas e experiências dos primeiros anatomistas (Vesale,1543), o corpo ocidental tornou-se matéria viva, "coisa" de medicina, e o dualismo cartesiano encontrou um imenso campo de experimentação "ao vivo": a Ciência Moderna se lança de corpo e alma nos estudos do corpo como realidade autônoma, totalmente separada do homem, da pessoa. Descartes corta, disseca, retira a inteligência do homem do seu corpo, da sua carne: "Eu não sou esse conjunto de membros que chamamos de corpo" (Descartes, 1970). Hoje, "o corpo é escaneado, purificado, gerado, remanejado, renaturalizado, artificializado, recodificado geneticamente, decomposto e reconstruído ou eliminado, estigmatizado em nome do grande 'espírito' ou do gene 'ruim'. A sua fragmentação é conseqüência da do sujeito. O corpo aparece hoje como o maior desafio político, ele é o analisador fundamental das nossas sociedades contemporâneas" (1999: 21). David Le Breton mostra como, nas representações pós-modernas do corpo e nas novas técnicas corporais ocidentais, o espaço que separa o homem do seu corpo se estendeu. Para ele, já entramos no tempo "pós-biológico" da história humana, período no qual a humanidade busca superar as fragilidades e as imperfeições ligadas a sua condição "corporal". As novas tecnologias, com seus discursos, suas experiências e suas descobertas, sonham com um corpo biônico, tão perfeito e controlável quanto um computador, e nos convidam a conceber a carne do corpo como um puro feitiço, do qual seria melhor se livrar logo.
A ficção científica sempre esteve muito interessada nas conseqüências que as novas tecnologias poderiam ter sobre o corpo; do cinema à literatura, muitos foram os romancistas que entenderam que, no "futuro", o homem iria querer mudar sua condição corporal e que a noção de corpo se constitui como uma grande musa da imaginação futurista. Do doutor Frankenstein (Wells, 1990) aos trabalhos do doutor Moreau (Shelley, 1983), de Blade Runner a Matrix, o uso do corpo humano como um material biológico disponível coloca sempre em cena personagens cuja evidência "humana" é rompida e cujo estatuto antropológico suscita o medo. Em Matrix, a carne é considerada como uma doença, a condição corporal vista como epidemia e os corpos humanos são fabricados e controlados industrialmente pelos próprios robôs, que inverteram os papéis e demostraram a superioridade dos materiais eletrônicos sobre as matérias vivas, da eternidade sobre a morte. Esse poder de "dar a vida" que têm os robôs no filme parece muito com os poderes que querem adquirir os geneticistas e os engenheiros da Inteligência Artificial do final do século XX. As criaturas moldadas por Moreau na sua ilha de experimentação genética eram híbridas, hoje, a clonagem de animais (e a ciência de reprodução do "idêntico" ultrapassa tecnologicamente a das misturas) já foi realizada várias vezes (o primeiro caso foi de uma ovelha e do seu clone Dolly). Através de uma leitura antropológica da literatura de ficção científica contemporânea (Dick, Ballard, Moravec, Gibson...), Le Breton coloca em evidência a velocidade das transformações nas representações e nos usos sociais e medicinais do corpo humano. Tradicionalmente inspirada pelas últimas descobertas científicas e as suas possíveis perspectivas futuras, a ficção científica de hoje está sendo, paradoxalmente, cada vez mais "realista". A aceleração das descobertas nas biociências e os avanços tecnológicos produzem um "efeito de real" que ultrapassa muitas vezes o próprio desafio "futurístico" da ficção científica: descrever um futuro radicalmente diferente do presente, uma ficção do tempo no mundo.
"O nosso próprio mundo virou um universo de ficção cientifica" (1999: 159). O futuro do corpo é hoje, nos avisa Le Breton, e ele está sendo questionado tanto pelas literaturas de ficção quanto pelos científicos. David Le Breton, que já sabe há muito tempo que a única realidade do corpo é de ordem simbólica, mergulha entre o biológico e o ético, entre o corpo "real" e o "virtual" (ou feitiço), sem nunca se perder numa ficção antropológica, justamente porque ele sabe usar um para analisar o outro, e vice-versa. Nesse último livro, David Le Breton consegue navegar através dos novos paradigmas do corpo (o corpo-(alter)ego; o corpo virtual; o corpo genético...), conceitos que aparecem fundamentais para entender a condição humana no século XXI. Neste percurso, ele dirige o leitor com firmeza e precisão, e, ao mesmo tempo, o convida a viajar em torno dos futuros corpos, entre as descobertas e os delírios da ciência e da tecnologia.
Na primeira parte do livro, ele aborda as tentativas do indivíduo, nas nossas sociedades ocidentais, de dominar seu corpo, suas emoções, seu eu corporal tanto através de biopoderes coletivos (Foucault) quanto através de um autocontrole de si que passa por um profundo desprezo do corpo. O primeiro passo dessa desconfiança com o corpo concerne a sua aparência, sua exterioridade e visibilidade. Assim que o corpo chega, a sociedade toma conta dele, o corpo é concebido e vivido como se fosse um objeto inacabado, incompleto, um puro rascunho da identidade pessoal. Em busca de um corpo ideal (Malysse, 1998), os indivíduos procuram incorporar as normas de uma nova estética corporal. No Rio de Janeiro, muitas pessoas procuram mudar seu corpo através de uma hipermalhação para transformar a imagem do seu "eu" e, assim, sua vida social. Nessas práticas de modificação da aparência, o corpo é vivido como um parceiro e não se apresenta mais como dado, dando início a processos psicológicos e sociais, mas como produto desses processos. Nessa linha de pesquisa, Le Breton analisa também as marcas corporais (tatuagens, piercing...) como signos de uma mudança radical em relação ao corpo. No vasto campo do body art, ele apresenta os trabalhos do Faquir Musafar, líder dos "Primitivos Modernos" que experimenta no seu próprio corpo várias modificações corporais inspiradas pelas culturas primitivas. David Le Breton considera também o transexualismo como uma marca corporal, pois "a marca corporal traduz a necessidade de completar, por iniciativa pessoal, um corpo que não chega a incorporar/encarnar a identidade pessoal" (1999: 98). Nessas práticas de individualização, que levam a uma recriação de si, o corpo se torna uma extensão do eu, a parte visível do "ego" e Le Breton relaciona essas práticas de "correção" do corpo com a medicalização da vida cotidiana e com a produção farmacológica de si. Por um lado, o corpo visível é reconstruído, por outro, as emoções e sensações são controladas através do uso cotidiano dos psicotrópicos. Do dentro ao fora, do visível ao sensível, essa desconfiança com o corpo leva os indivíduos a usar pílulas e medicamentos para tudo: para acordar, para dormir, para estar em forma, para combater o estresse, a apatia, para engordar, para emagrecer, para bronzear...
Para Le Breton, "o corpo humano virou um continente explorado pelos cientistas em busca de benefícios. No tempo dos anatomistas, os pesquisadores somente procuravam nomear cada fragmento do corpo, hoje eles tomam posse dele para melhor gerenciar os seus usos econômicos potenciais. A colonização não é mais espacial, ela investe na corporeidade humana" (:117). Através de uma leitura crítica dos avanços em genética humana e reprodução artificial, Le Breton mostra em quais pontos o homem procura dominar a sua incorporação ao mundo: a fecundação in vitro (FIV), os controles de "fabricação", os testes do embrião, a idéia de uma infanticida na medicina, a utopia de uma gravidez masculina, estes são os signos de uma forma de eugenismo pós-moderno. O Projeto Genome que tenta cartografar a estrutura do DNA humano, considerando que o nosso destino é inscrito nos nossos genes, e as experiências com a clonagem que aparecem como uma tentativa de avaliar as razões genéticas das coisas "humanas": de explicar tudo pelo genético. Assim, hoje, certos cientistas americanos, pensam "seriamente" que a violência pode ser de origem genética, como seriam também o homossexualismo, o alcoolismo... e isso, "do mesmo jeito que, na época da escravidão, teriam descoberto a existência de um gene do escravo!" (1999: 104). As questões de Bioética, levantadas por essas novas ciências, aparecem aqui como novas perturbações introduzidas na configuração do corpo e na configuração do mundo. Da mesma forma, "o virtual marca o começo de um novo paradigma da relação do homem com o mundo" (: 16). Ciberespaço, cibersexualidade, inteligência artificial, mito do Andróide sensível e inteligente...
O corpo da realidade virtual aparece desencarnado e a carne vira uma pura ficção. O ciberespaço parece poder livrar finalmente o homem da "escravidão do corpo" (Timothy Leary). A noção de "carne-no-mundo" e toda a fenomenologia do corpo desenvolvida por Merleau-Ponty não tocam mais ninguém, a relação com o mundo está sendo radicalmente transformada numa troca de informações, na qual os homens sonham ser "eletrônicos"... Esse mito do "homem silicium" pode assustar os mais sensíveis, os leitores mais emotivos, aqueles que ainda estão-no-mundo, mas o discurso de Le Breton é sem exagero e sem ambigüidades, ele termina seu livro confessando que "felizmente, ficamos em carne e osso para não perder o gosto do mundo"(: 223). Da sua "ciência" antropológica, David Le Breton consegue mostrar com explicações sábias os elementos mais recentes da imensa história do corpo descrevendo com fineza as conseqüências das novas tecnologias sobre o nosso "corpo" total (Mauss, 1950), social, biológico e psicológico. Da sua paixão pela "ficção", ele escolhe os melhores exemplos ilustrativos, as imagens mais marcantes do nosso novo imaginário do corpo. Como Paul Stoller, David Le Breton sabe desfrutar de todas as riquezas descritivas e evocativas da literatura e por meio desse diálogo incessante entre Antropologia e Literatura. Ele criou um estilo de escrever a "Antropologia" rompendo definitivamente as fronteiras entre os gêneros. Ele faz na escrita, na sua prática antropológica, o que James Clifford e os pós-modernos americanos apenas teorizaram: "Para mim, somente a literatura pode realmente dar conta desse mundo de sutileza e de fragilidade do corpo humano" (Barthes, 1978).

Bibliografia
BARTHES, R. 1978 Critiques, Le Seuil, Paris, p. 125.
DESCARTES, R. 1970 Méditations métaphysiques, Paris, Puf.
LE BRETON, D. 1985 Corps et sociétés, Paris, Librairie des Méridiens. 1991 Passions du risque, Paris, Métaillié. 1992 "Sociologie d'aujourd'hui", in Anthropologie du corps et modernité, Paris, PUF. 1993 La chair à vif. Usages médicaux et mondains du corps humain, Paris, Métaillié. 1995 Anthropologie de la douleur, Paris, Métaillié. 1996a Des visages. Essai d'anthropologie , Paris, Métaillié. 1996b La sociologie du risque, Paris, PUF, collection Que sais-je. 1997a Du silence, Paris, Métaillié. 1997b Le corps virtuel: Interview de Chine Lanzmann, Canal Plus, publié sur Netscape http://www.cplus.fr/cyberculture/inter-11.htm. 1998 Les passions ordinaires. Anthropologie des émotions, Paris, Armand Colin.
MALYSSE, S. 1998 "Em busca do corpo ideal", Revista Sexualidade Gênero e Sociedade, n. 7-8, abr.
MAUSS, M. 1950 "As técnicas corporais", in Sociologie et Antropologie, Paris, Puf.
SHELLEY, M. 1983 Frankenstein ou le Prométhée moderne, (1818), Livre de poche, Paris.
VESALE 1543 De humani corporis fabrica.
WELLS, H. G. 1990 L'île du docteur Moreau, (1896), Folio, Paris, 1990.

© 2008 Revista de AntropologiaDepartamento de Antropologia FFLCH/USPAv. Professor Luciano Gualberto 315Cidade Universitária05508-900 São Paulo SP BrazilTel.: +55 11 3091-2347Fax: +55 11 3091-3163



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As Maiores Invenções Médicas do Milênio
Renato Sabbatini
Na semana passada escrevi sobre as dez mais importantes invenções do milênio. De propósito, deixei de fora os grandes avanços médicos, pois eles tiveram um impacto igual ou maior do que muitas das invenções tecnológicas, ao diminuir ou eliminar doenças que influenciavam dramaticamente o curso da história da humanidade (inclusive o destino de civilizações inteiras). Eles merecem um capítulo à parte:
1. Antibióticos: De todas as descobertas voltadas ao bem-estar humano, esta foi a que transformou mais profundamente a nossa história, ao livrar-nos da maioria das infecções bacterianas que provocavam grande mortalidade no passado, como a tuberculose, a pneumonia, a meningite, a sífilis, a crupe, a gangrena, e outras. A partir da penicilina, descoberta ao acaso pelo médico inglês Alexander Fleming, em 1928, tornou-se uma grande indústria na Segunda Guerra Mundial. O médico e divulgador americano Charles Thomas, em seu livro "The Last Science", disse que a medicina só se tornou ciência verdadeira a partir dos antibióticos. Antes deles, era boa no diagnóstico das enfermidades infecciosas, mas entregava o seu tratamento a Deus&
2. Vacinas: Juntamente com os antibióticos, foi a descoberta médica que mais salvou vidas e que aumentou a longevidade média humana em algumas décadas, ao prevenir que bilhões de crianças e adultos fossem afetados por doenças que devastaram a humanidade, como a varíola (a primeira doença natural extinta pela mão do homem), a febre amarela, a febre tifóide, a poliomielite (desenvolvida por Jonas Salk, em 1954), o tétano, a raiva, e tantas outras. E, ao contrário dos antibióticos, aos quais as bactérias podem se tornar resistentes, as vacinas, usadas praticamente primeira vez pelo médico inglês Edward Jenner, em 1796 (descobridor da vacina contra a varíola), são sempre efetivas. Também são as únicas armas para previnir doenças causadas por vírus. Quem sabe uma vacina salvará a humanidade de seu mais temível espectro, a AIDS?
3. Anestesia: a luta para vencer a dor sempre foi uma prioridade para a medicina, desde Hipócrates. Imaginem fazer uma cirurgia cardíaca de quatro horas de duração sem anestesia: seria impossível. Por isso é fácil ver como essa foi uma das mais importantes descobertas/invenções médicas de todos os tempos. Como as demais, é muito recente: apenas em 1846 que o dentista americano Thomas Green Morton usou o éter pela primeira vez para fazer extrações dentárias e cirurgias na cidade de Boston.


Joseph Lister, inventor
da antissepsia.

Alexis Carrel, inventor dacultura de tecidos e órgãos
5. Transplantes: A transfusão de sangue e o transplantes de órgãos, como os rins, córneas, pele, ossos, medula, coração e fígado, tornaram-se possíveis a partir das descobertas do cientista americano Alexis Carrel, nos anos 20s, que descobriu como manter tecidos vivos fora do corpo, por cirurgiões que desenvolveram as técnicas cirúrgicas e pós-cirúrgicas, como o Dr. John Murray, da Universidade Harvard (transplantes de rim) e o famoso Dr. Christiaan Barnard, que fez o primeiro transplante cardíaco na África do Sul, em dezembro de 1967. O futuro dos transplantes reside nas técnicas homólogas, utilizando a engenharia genética para fabricar cópias perfeitas dos nossos próprios órgãos, a partir de células-tronco (células embrionárias precursoras de todos os tecidos).
6. Microscópio: é, seguramente, o instrumento mais importante da história da medicina, tanto na pesquisa e ensino, quanto no diagnóstico clinico. Sem ele não seria possível a bacteriologia, a histologia (estudo dos tecidos orgânicos) e a patologia (estudo das bases orgâncias das doenças). A partir de Antonie van Leeuwenhoek, o cientista holandês que notabilizou o uso do microscópio, no século XVII, tornou-se a ferramenta básica da pesquisa médica, sendo usado por grandes nomes como Pasteur, Koch, Virchow, e muitos outros. Depois do microscópio óptico, surgiram na segunda metade do século XX outras invenções muito importantes, como o microscópio eletrônico, o microscópio de varredura, e o microscópio de forças atômicas.
Antonie van Leeuwenhoekinventor do microscópio
Microscópio devan Leeuvenhoek
7. Radiografia: uma das mais espetaculares e influentes invenções, o aparelho de radiografia, pelo físico alemão Wilhelm Röntgen, em 1895, revolucionou a medicina ao permitir que os médicos obtivessem imagens não invasivas do corpo dos pacientes, ou seja, sem precisar abri-los. Milhares de diagnósticos se tornaram poss&iac face=Arial,Helvetica>por Röntgen
8. Tomografia Computadorizada: entre as grandes invenções médicas, esta é a única feita pela engenharia, e também teve um impacto significativo sobre a medicina moderna. Em 1968, os engenheiros Godfrey Hounsfield e Allan Cormack, descobriram que podiam obter imagens de raios-x na forma de "fatias" transversais do corpo humano, com alta resolução. Ganharam o prêmio Nobel por esse feito, que exige o auxílio de um computador e complexas técnicas matemáticas. Outras formas de tomografia foram posteriormente desenvolvidas, aumentando o arsenal de sofisticadas técnicas de imagens anatômicas e funcionais à disposição do diagnóstico: em 1971, Raymond Damadian desenvolveu a tomografia de ressonância nuclear magnética (MRI) e em 1978, Louis Sokoloff inventou o tomógrafo de emissão positrônica (PET). Os aparelhos de ultrassom também foram um grande progresso na área de imagens médicas não invasivas neste século.
9. Pílula anticoncepcional: pode ser usada para tratar doenças, mas sua invenção teve enorme impacto social, ao liberar centenas de milhões de mulheres do fardo da gravidez indesejada. Isso incentivou o desenvolvimento de uma nova classe de mulheres profissionais nas sociedades modernas, e foi uma das prováveis causas da "revolução sexual" dos anos 70s, ao permitir o sexo fora do casamento sem medo da gravidez. A pílula foi desenvolvida por dois médicos americanos entre 1950 e 1955, Gregory Pincus e Carl Djerassi, incentivados pela feminista e ativista social Margaret Sanger (que inventou o termo "controle do nascimento") e Katharine McCormick, uma rica herdeira industrial, que financiou a pesquisa que levou, dentro de uma década à comercialização do primeiro anticoncepcional oral. Chamava-se Enovid e foi colocada no mercado em 1961, pela Searle.
10. Terapia gênica: Cada ser humano carrega em média seis genes defeituosos, que podem causar doenças genéticas ou favorecer doenças causadas pelo ambiente. Cerca de 10% das pessoas desenvolve uma das mais de 2.800 doenças hereditárias conhecidas, ao longo de suas vidas. Por isso é tão importante a terapia gênica, que consiste em evitar ou tratar doenças através da interferência direta no código genético (DNA) contido nas células. É a medicina molecular, uma metodologia extremamente nova, e ainda polêmica, por não ter apresentado resultados consistentes até agora, apesar dos enormes investimentos feitos em pesquisa e em desenvolvimento. Mas ninguém duvida que ela seja o futuro da medicina, a vitória definitiva contra muitas doenças.
Para Saber Mais
Watkins, E.S.: On the Pill: A Social History of Oral Contraceptives, 1950-1970. John Hopkins University Press, 1998.
Sabbatini, R.M.E.: Curando os genes. Correio Popular, p.3, 10/12/99.















Forum du mois : Jusqu'où faut-il respecter l'animal ?

Sociologie
La santé, un enjeu de société > La santé, un enjeu de société
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Les sciences humaines et la santé
Histoire de la médecine
Les Grecs et le serment d'Hippocrate, Oribase (325-403) de Byzance et sa monumentale encyclopédie médicale, Avicenne et les médecins arabes, les premiers anatomistes... L'histoire de la médecine a longtemps retracé les avancées de cette science au fil des civilisations. Depuis le début du xxe siècle, cette histoire est interrogée par les développements de l'histoire des sciences, prenant des orientations plus critiques.
L'un des pionniers de cette nouvelle histoire de la médecine est l'Allemand Henry Sigerist (1891-1955), fondateur de l'Institut d'histoire de la mé-decine aux Etats-Unis, qui initie une approche culturelle, sociale et économique de la discipline.
En France, les travaux de Georges Canguilhem et de Michel Foucault questionnent le rôle de la médecine dans une vision plus large de l'individu ou de la société.
De l'histoire des grandes épidémies au vécu des malades, de la vie de laboratoire à l'analyse des institutions..., l'histoire de la médecine se déploie aujourd'hui dans le vaste champ de l'histoire culturelle.
Sociologie de la santé
La sociologie de la santé naît dans les années 50 aux Etats-Unis. Elle est alors avant tout une sociologie de l'institution médicale, qui s'intéresse à l'hôpital, son organisation, au rôle et au pouvoir du médecin. Après la sociologie fonctionnaliste (Talcott Parsons), le courant interactionniste (Everett Hughes, Erving Goffman, Howard Becker...) investit l'hôpital comme terrain d'étude en développant des enquêtes empiriques novatrices sur la formation des médecins, leurs interactions avec les patients, la gestion du « stigmate ». Un chercheur comme Anselm Strauss consacrera d'ailleurs toute sa carrière à l'analyse du monde médical.
Au cours des années 70, la sociologie de la médecine, qui apparaît en France, devient progressivement une sociologie de la santé. Les sociologues vont s'intéresser notamment au malade comme acteur, et à sa gestion quotidienne de la maladie. L'épidémie de sida va constituer un véritable laboratoire pour la sociologie, en permettant de s'intéresser à la fois à l'expérience des malades, à la construction d'un mouvement social autour d'un thème de santé publique, à son traitement politique et médiatique. Aujourd'hui, c'est l'ouverture de la santé à un grand nombre d'acteurs (usagers, collectifs de malades, médias) avec la question de leurs rôles et pouvoirs respectifs qui constitue l'interrogation la plus vive des sociologues.
Psychologie de la santé
La psychologie de la santé est une discipline très récente ; c'est un groupe de travail réuni en 1976 au sein de l'Association américaine de psychologie qui signe sa naissance. En moins de trente ans, elle a connu un essor considérable, d'abord dans le monde anglo-saxon, puis en France dans les années 90.
Elle intègre les apports de la biologie, des neurosciences, de la psychologie clinique et sociale pour étudier les différents facteurs psychiques, sociaux et biologiques qui interagissent dans la santé. Ses deux principaux objectifs restent la compréhension des mécanismes en jeu dans les maladies et la promotion de l'hygiène de vie. Elle s'intéresse aux conduites à risque (tabac, sexualité...), à la manière dont les individus s'ajustent à la maladie, au soutien social des malades ainsi qu'aux conséquences du stress. Ayant fait la preuve de sa rigueur scientifique, la psychologie de la santé promeut maintenant l'utilisation clinique de ses résultats, que ce soit dans les institutions pour personnes âgées ou les hôpitaux.
Géographie de la santé
La géographie de la santé s'appuie sur une très longue tradition, initiée par Hippocrate lui-même qui avançait le rôle du climat et de l'environnement, mais aussi de la localisation géographique, sur l'apparition des maladies. Si elle s'est longtemps cantonnée à une « géographie médicale » (avec par exemple Maximilien Sorre qui, en 1933, soulignait que l'environnement, altéré par l'homme, facilite la diffusion des maladies), la géographie de la santé a élargi son champ de recherches depuis trente ans. Elle étudie les maladies selon les inégalités de répartition territoriale, mais également la géographie des soins médicaux en termes d'inégalités spatiales d'accès, d'offre et de besoin. Les recherches, qui prennent en compte le contexte social et économique ainsi que l'environnement (tant physique que climatique), s'orientent maintenant vers les inégalités au sein de territoires beaucoup plus restreints, comme les villes.
Économie de la santé
L'essor de l'économie de la santé date des années 60, en France mais aussi dans les autres pays occidentaux, dans un contexte de croissance des dépenses de soin. Elle prend ses racines dans les célèbres travaux de Kenneth J. Arrow, futur prix Nobel, consacrés à l'« Incertitude et l'économie du bien-être des soins médicaux » (1963). A l'interface entre les pouvoirs publics, les administrateurs des systèmes de soin et le milieu médical, cette discipline connaît depuis ces travaux fondateurs une multitude d'approches théoriques et de domaines de recherches. Cette diversité, à défaut d'une totale cohérence, lui apporte sa richesse. Si de nombreuses études sont axées sur le financement du recours au soin médical, la croissance du marché de la santé ou le coût de telle maladie spécifique, l'économie de la santé ne néglige pas la dimension éthique. En réfléchissant par exemple sur l'efficacité optimale de l'offre de soin, elle tente, à sa mesure, de participer à la réduction de certaines inégalités sociales (en matière d'accès aux soins).
Anthropologie médicale
Les tentatives d'expliquer et de modifier les états du corps humain sont présentes dans toutes les cultures du monde. Depuis le xixe siècle, les ethnologues s'intéressent à étudier les pratiques de soin et de guérison parmi des peuples lointains, ainsi que leurs idées concernant le corps humain, les maladies, la reproduction. L'anthropologie médicale s'est constituée en spécialité lorsque, dans les années 50, des anthropologues anglo-saxons ont été pressentis pour participer à des enquêtes d'épidémiologie touchant notamment l'alimentation et les soins du corps dans les sociétés occidentales. Depuis, cette branche de l'anthropologie s'est diversifiée en intégrant à son objet les théories, les pratiques et les institutions de la biomédecine moderne. Au-delà d'une ethnomédecine qui étudie les savoirs populaires comme éléments de culture, l'anthropologie s'intéresse à tous les usages du corps confronté à la reproduction, la sexualité, la maladie, la thérapeutique, la chirurgie, ainsi qu'aux lieux, cadres et systèmes de recherche médicale, de soin, de santé comme les hôpitaux, les industries pharmaceutiques et les associations de soin. Plus que d'autres spécialités, l'anthropologie médicale a vocation à exercer une expertise dans les domaines de la bioéthique, de la procréation assistée, de la médicalisation des sociétés, de la mondialisation des biomédecines.
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Page 1
RAZÃO COMUNICATIVA, INTERAÇÃO E RECEPÇÃO
Gilberto Barbosa Salgado
1
(Universidade Federal de Juiz de Fora)
Resumo: Esse trabalho busca estabelecer pontos de comparação e de contraste entre as
teorias da Ação Comunicativa de Habermas, o Interacionismo Social (trabalhado por
diversos autores) e a Estética da Recepção, que se desdobrou na teoria do Efeito Estético,
de Wolfgang Iser, para, em seguida, uma vez cotejadas, serem aproximadas dos fenômenos
comunicacionais, dando relevo a seus problemas epistêmicos e interpretativos.
Palavras-Chave: epistemologias de teorias; interação comunicativa; efeito da recepção.
1. Apresentação.
O objetivo primordial desse “paper” é demonstrar a importância para as teorias da
comunicação, assim como para a sua epistemologia e também sua hermenêutica, de toda
uma série de outras teorias, tais como a Teoria da Ação Comunicativa de Jurgen Habermas,
a Teoria Sócio-Interacionista desenvolvida por diferentes autores, e a Teoria do Efeito
Estético de Wolfgang Iser, mais afeitas às ciências sociais, mas de modo algum
circunscritas às mesmas, que possuam por escopo abordagens fronteiriças entre a sociologia
e a comunicação. Não é uma tarefa fácil para ser levada a termo no formato sintético desse
modelo de demonstração quase ensaístico, porém, nem por isso, menos importante.
A relevância dessas teorias pode, por si só, ser justificada pelo rico elenco de
autores. O trabalho de Habermas teve repercussões mundiais e, no âmbito acadêmico
alemão, suscitou debates –com prós e contras- entre autores como Karl-Otto Apel, Niklas
Luhmann, Peter Sloterdijk e Axel Honneth, para mencionar apenas alguns. Já na corrente
interacionista, que possui diversas correntes e subdivisões, podem ser mencionados Peter
Berger, Herbert Blumer, Peter Hall, Erving Goffman, Howard Becker e Anselm Strauss,
todos com abordagens um tanto diferentes. Por seu turno, Wolfgang Iser articula uma
1
Sociólogo e psicólogo, mestre em Sociologia (IUPERJ) e doutor em Comunicação e Cultura (UFRJ); é
professor da UFJF desde 1987, onde desenvolve suas pesquisas no Núcleo de Estudos Estratégicos, sendo
professor e pesquisador do Mestrado em Ciências Sociais da UFJF. O autor agradece os comentários críticos
dos colegas André Gaio e Eduardo Condé, o que não os tornam responsáveis por possíveis equívocos
cometidos.
Page 2
instigante teoria do Efeito Estético a partir da Teoria da Estética da Recepção de Hans
Robert Jauss, hodiernamente comentada por Hans Ulrich Gumbrecht.
Como já se afirmou, são caminhos compostos por indagações múltiplas e
caleidoscópicas. Ainda que seja tentador procurar “trabalhar” com todos esses autores, o
estudo ficará circunscrito a Habermas, pela racionalidade comunicativa, Goffman e Strauss,
pelo interacionismo, e Iser e Gumbrecht, representando os debates sobre o efeito estético.
Uma conclusão buscará aproximar aspectos dessas teorias com problemas epistemológicos
e hermenêuticos das teorias da comunicação.
2
2. O Interacionismo e os Grupos Sociais.
Muitas teorias em ciências humanas, ao longo dos decênios, costumam,
progressivamente, passar por sucessivos processos de síntese e depuração.Talvez se possa
argumentar que esse é um processo de decantação, em que a base epistemológica dessas
teorias permanece como pano de fundo, enquanto que mecanismos de síntese vão,
paulatinamente emergindo. As ciências buscam, por si só, auto-normatividade, auto-
reflexividade e auto-compreensão
3
em um processo natural na composição dos paradigmas
científicos. As concepções teóricas que permanecem não perdem sua base ou, por assim
dizer, “chão”, porém emergem com novas contextualizações conceituais e abstrato-formais.
Esse foi o caso típico do Interacionismo.
A base filosófica que influenciou a teoria interacionista deriva-se de várias fontes,
sendo, como já se sublinhou, sucessivamente aprimorada. Edmund Husserl, Martin
Heidegger e Jean-Paul Sartre foram alguns desses nomes: de Husserl os interacionistas
aproveitaram a proposição da “redução eidética”, como o momento de análise do
fenômeno, após as operações de reduções filosóficas e fenomenológicas. De Heidegger a
idéia de “acontecimento-apropriação”, exposta em “Ser e Tempo” sendo que, alguns anos
mais tarde, e nas novas gerações, Sartre foi o mote influenciador, pelas idéias de
autenticidade, projeto e existência, articulando-as como intersubjetividade. Entretanto foi o
2
Objetivo secundário, mas não menos relevante, é contribuir para os debates desse Núcleo de Pesquisas em
Teorias da Comunicação, tradicional e importante na INTERCOM.
3
Com a liberdade da tolerância utilizam-se livremente as categorias de Karl Mannheim, apresentadas em
diversos de seus estudos e levadas adiante pelo sociólogo da ciência David Bloor, antigo editor da revista
Social Studies of Science; Bloor aprimora essas noções e associa-as à concepção de paradigma em seu
seminal estudo, intitulado Knowledge and Social Imagery, já traduzido no Brasil.
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filósofo alemão Georg Simmel, contemporâneo de Max Weber,
4
que empreendeu uma
interpretação decisiva quando, ao refletir sobre uma possível filosofia das formas sociais,
culminou na importante noção de sociabilidade. Para Simmel, esta –a sociabilidade- dar-se-
ia essencialmente por processos de intersubjetividade entre indivíduos
5
. O autor
desenvolveu, por conseguinte, o conceito de interação, que seria o pilar do interacionismo.
Para Simmel seriam diferenciadas e, talvez, dinamicamente evolutivas as formas de
interação: a mais remota a interação seria a do homem com a natureza, desmistificando a
idéia de mônada ou de indivíduo isolado tal como um hermitão, pois os processos de
influência seriam recíprocos; em seguida a interação diádica, para a qual pode-se remeter
como mais antiga a existente entre mãe e bebê, pois inicia-se na vida uterina; da diádica
para a triádica
6
, sendo, define o autor, inúmeras as díades e tríades que celebramos na vida.
Simmel também postulou por uma interação familiar, uma interação grupal, e, tema
posterior de Toennies, Durkheim e tantos outros, uma interação comunitária, que
antecedesse à social (que ele denominava de interação societária). Foi a sua maneira de
responder à clássica formulação fundante da sociologia, qual seja, “como é possível a
sociedade”. Posteriormente alguns autores advogaram por uma interação nacional, como
base do nacionalismo e, até, por uma interação holística ou com o cosmos, como
sentimento de pertencimento a algo maior.
Com Simmel a filosofia e a sociologia estavam definitivamente articuladas, tendo
como novidade epistêmica, um alcance micro-social. As noções de representação e
identidade complementarão, lado a lado à interação, o enxuto e elegante feixe conceitual
do interacionismo. Pode-se afirmar, sem o receio do erro, que o autor que “promoveu” essa
“costura” foi Alfred Schutz, na sua “Fenomenologia e Relações Sociais” (Rio de Janeiro,
Zahar, 1979), aludindo às categorias de mundo da vida, cognição e relações sociais,
ulteriormente caras a Habermas. Mais ainda, para Schutz essas noções são fundadoras de
conhecimento, no sentido literal do termo.
Como já foi mencionado, o caminho do Interacionismo como corrente da teoria
social, inclusive em seu sentido ideológico, passaria por variadas hibridizações e
“sincretismos”. Com efeito, face à imensa recepção da obra de Simmel nos Estados Unidos,
4
Que acabou passando à história como um dos grandes nomes do nascimento da sociologia.
5
Noções que também aparecerão de forma similar nas obras de Martin Buber e de Emmanuel Lévinas.
6
Sua formulação clássica foi imortalizada por Freud na noção de Complexo de Édipo.
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alguns de seus conceitos e categorias foram importantes para as formulações iniciais da
escola de Chicago, especificamente no que tange a uma inspiração para pesquisas
qualitativas destinadas a melhor compreensão de comunidades, como nos casos de Wirth,
Small e Foote-Whyte, assim como para o estudo do planejamento urbano de metrópoles.
Por mais saudável que tenha sido essa recepção, a evolução de sua utilização para estudos
empíricos qualitativistas sobre micro-temas, tais como a análise da conversação, as
conversas telefônicas, a reprodução de padrões familiares e os arrazoados retóricos forenses
nos tribunais de júris, culminaram por “enjaular”
7
a teoria interacionista em uma série de
formulações teóricas, por vezes muito sofisticadas, contudo bastante próximas da análise
individual do comportamento, já denominada de behaviorismo. Não foi outro o resultado
com a corrente batizada de etnometodologia, cujos principais nomes, Harold Garfinkel e
Aaron Cicourel, também são identificados como “pais fundantes” do interacionismo, posto
que não tenham auxiliado em muito as formulações de Herbert Blumer que, mesmo
criativas, são hoje consideradas um tanto quanto “simplistas”.
O interacionismo corria o risco de virar uma variante do behaviorismo, ou mesmo de
sua dissolução, em uma “visada” funcionalista; a última corrente, nos Estados Unidos,
capitaneada pelo invulgar Talcott Parsons. Era necessário um “manifesto fundante” do
interacionismo, para restaurar o lugar, vale o negrito, daquilo que já havia sido fundado e
possuído por sua gênese formadora. Nesse sentido a reação ideológica foi muito forte, de
maneira que no meio acadêmico norte-americano, no decênio de sessenta do século
passado, foi o interacionismo, e não o neomarxismo ou marxismo ocidental, como
postulam alguns apressados, a teoria de cabedal crítico frontal dos excessos mecanicistas e
conservadores do funcionalismo, na sociologia, e do behaviorismo ou comportamentalismo,
na psicologia.
8
A psicanálise inglesa, por exemplo, “antenada” com esse debate, já que o “inimigo”
era o behaviorismo, produziu notáveis estudos, de grupos sociais inclusive, através de
autores como Donald Winnicott, Wilfred Bion, Erik Erikson e, mais tarde nos EUA, Heinz
Kohut, com a noção de self.
9
Deste modo, era mesmo necessária uma “refundação” e, não
7
Na ausência de melhor metáfora vale a inspiração vaga weberiana.
8
De fato, Parsons decepcionou-se com a não aceitação universal de sua teoria nos campi norte-americanos.
9
Noção essa que atualmente esta no cerne das reflexões de autores denominados “comunitarianos”, como
Charles Taylor, Michael Walzer e Alasdair McIntyre (e que, em certo sentido, se contrapõem a Habermas).
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obstante, uma refundação crítica, que veio pela obra de Peter Berger, escrevendo em
colaboração com Thomas Luckmann. Sendo assim, “A Construção Social da Realidade”
(Petrópolis, Vozes), e “Perspectivas Sociológicas” (idem), restauraram o lugar e o vigor
crítico do interacionismo, sendo que, aquela mais do que essa, sem dúvida alguma poderia
ser considerada o “manifesto” da escola. Ao introduzir as temáticas das instituições, dos
papéis sociais, da socialização primária e secundária
10
e da realidade objetiva e subjetiva,
Berger levou a extremo vigor social a noção de identidade, derrubando o mito da noção de
“caráter”
11
, e propugnando por uma identidade aberta e em permanente construção,
metamorfose e mutações. Inclusive, de forma sutil, complementa a máxima de Blumer de
“que não passa de bravata” a idéia de um indivíduo incapaz de ser influenciado ou de
influenciar outrem.
Os estudos práticos qualitativistas e altamente criativos do sociólogo e também
saxofonista Howard Becker, intitulados “Uma Teoria da Ação Coletiva” (Rio, Zahar) e
“Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais” (São Paulo, Hucitec), revigoraram a prática
interacionista, proporcionando a emergência de novos estudos, cotejando teoria e prática,
tais como “Grounded Theory” de Anselm Strauss e, com nova formatação, Nathan Glazer;
justapostos às obras instigantes de Erving Goffman. Este, talvez, tenha elevado o
interacionismo ao seu maior patamar: as concepções de estigma e de manipulação da
identidade (aqui um traço negativo para a mesma), o seminal e já clássico capítulo sobre as
“características das instituições totais” no seu “Manicômios, Prisões e Conventos” (São
Paulo, Perspectiva) e, last but not least, a articulação entre os papéis e a teoria da
representação
12
, para em seguida, biunivocamente, relacionarem-se com a interação e a
identidade, conformam a autenticidade, originalidade e criatividade de sua contribuição. O
interacionismo atingia aquilo que muitos epistemólogos e sociólogos da ciência gostariam,
ou seja, uma “elegante” teoria, aplicativa, repousada em poucos e generalizáveis conceitos.
10
Essas últimas categorias são essenciais para a psicologia social.
11
Defendido pela escola teológica denominada de moralista, sem conotações pejorativas ao termo.
12
Noção milenar, a idéia de representação aparece em Platão, Aristóteles, Spinoza, Schopenhauer, Freud, e
nos estruturalistas e pós-estruturalistas franceses, para ficar apenas em alguns autores, tendo polissemias
como representação simbólica, alegórica, ficcional, ideativa, cognitiva, lingüística, inconsciente, social,
cultural, política, fabulativa, dentre tantas, e, a mais remota de todas, a mnêmica, isto é, representação de
memória, que só deixa de ser individual quando socializada; Goffman esteve atento a essas “polifonias” e as
articulou com as concepções de interação e de identidade.
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Goffman ousou in extremis com o seu “Frame Analysis” (Harvard University Press,
1974), obra cujas similaridades com a “Grounded Theory” de Strauss e Glazer merece vir a
ser estudada. Análise de quadros, ou de enquadramento
13
, a proposta de Goffman é uma
microscopia social sobre os processos de organização da experiência e, fundamentalmente,
é um diálogo aberto com todas tendências genealógicas do interacionismo, em notável
capacidade de erudição. A análise “dramatúrgica” de eventos é das mais criativas, com
proposições, inclusive, para o enquadramento de entrevistas.
Goffman tem o seu pathos guardado ao lado de Anselm Strauss. Ambos merecem
melhor atenção dos teóricos da comunicação, mas também por seus approaches empíricos,
em suas abordagens micro-sociais. Além disso, enfatizaram, outrossim, a importância dos
estudos dos grupos sociais. A fundamental obra de Anselm Strauss é “Espelhos e Máscaras
– A Busca da Identidade” (São Paulo, Edusp), um livro que serve para refletir sobre as
organizações, os grupos sociais, os processos de mudanças nas interações e,
derrogativamente, como os sentimentos gregários dos seres humanas são capazes de
intervir na experiência e na identidade, individual e/ou grupal. Para Strauss, as interações
são matizadas pelas intenções, os ritmos das ações, os devaneios e fantasias, as regras, os
desafios, as proclamações públicas das mais diferenciadas
14
, a superação, a traição, a
estranheza, o embuste, as liturgias, o controle do tempo, as crises, dentre outras que são
congêneres
15
. O essencial para Strauss é que a identidade é um processo em construção
jamais finalizado e fascinante por sua permeabilidade à mutação.
16
Jurgen Habermas não ignorou os interacionistas e é com ele que se inicia o próximo
diálogo.
3. Racionalidade Comunicativa para a Ação e o Diálogo.
O filósofo social Jurgen Habermas é autor de vasta e complexa obra. Suas
influências são decorrentes de múltiplas tradições que, como se não bastasse, o autor
debateu “por dentro”. No âmbito desse artigo estar-se-á circunscrito a Teoria da Ação
Comunicativa, sua tour de force, que veio a lume em 1981, acrescida de uma ou outra
13
É difícil e imprecisa a tradução literal.
14
Atitudes comprobatórias da interação.
15
A impressionante seqüência de análise dos sentimentos gregários vai da página 61 a 134.
16
Peter Hall, outro interacionista, sempre propugnou por uma ordem social permanentemente negociada.
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consideração acerca da noção de esfera pública. Além disso, o autor ainda está em plena
produção intelectual e seus artigos já abrangem temas da realidade e de conjuntura, sempre
em consonância com sua teoria, de forma que uma avaliação de sua obra, de forma
genérica, pecaria pela incompletude. De todas as influências, no entanto, a mais notável é a
da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt.
Os também filósofos sociais, que lideraram intelectualmente a assim denominada
Escola de Frankfurt, foram Theodor Adorno e Max Horkheimer, e tiveram grande
influência sobre Habermas, mesmo que para rebatê-los. Herbert Marcuse, outro
proeminente expoente da Teoria Crítica, também impressionou o filósofo alemão, em
especial no tema da tecnologia na sociedade pós-industrial.
O sombrio e crítico diagnóstico empreendido por Adorno e Horkheimer sobre a
“indústria cultural”, no famoso e controvertido texto de 1944, demonstrou que as operações
de industrialização, fetichismo da mercadoria, serialização, padronização e
desencantamento do mundo por padrões seculares administrados, atingiram,
inexoravelmente, a cultura e a arte. Os autores, que propugnavam pela intransigente defesa
da razão emancipatória, fiadora da liberdade, da redenção e da igualdade, contra a
tecnicização empreendida pela razão instrumental, capaz de “curvar” todos os sujeitos à
lógica de objetos do progresso técnico da sociedade industrial tardia, não conseguiram
vislumbrar uma superação sintética para esses antagonismos. Para Adorno, em livro
posterior intitulado “Dialética Negativa”, essas contradições não se superariam
dialeticamente, sendo que a única saída redentora residiria na arte e na estética.
17
Os frankfurtianos foram criticados pala ausência de um prognóstico otimista, a
pouca esperança na “vertebração” da cultura popular e pela paralisia da crítica em um
exercício sem saídas. Ao contrário, anos mais tarde, pertencente a uma nova geração,
Habermas procurou realizar uma obra, que no diálogo fecundo com diversas tradições
filosóficas e sociais, conseguisse sinalizar um caminho otimista sem perder a crítica.
Ao elaborar, em “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (Rio, Tempo Brasileiro),
uma concepção de esfera pública que ampliava a idéia de sociedade civil, e incluísse temas
culturais e de difusão (o famoso capítulo, por exemplo, sobre o papel das cartas nos salões
17
Temas de seu último livro, concluído post-mortem por sua esposa Graetel (“Teoria Estética”).
Page 8
do século XVII), além do surgimento da imprensa e da opinião pública, Habermas ordenou
suas preocupações para, posteriormente, pensar a cultura sob novas disjuntivas.
18
Fundamentalmente, essa nova disjuntiva iria opor, de uma lado, trabalho, como
categoria sociológica central no capitalismo e, de outro, interação, a mesma noção e em
sentido muito próximo ao dos interacionistas.
19
Habermas percebeu que o capitalismo
tardio apresentava uma interpolação desses eixos antinômicos, com a presença do trabalho
na esfera da interação (levar trabalho para casa, por exemplo) e, inversamente, a presença
da interação na esfera do trabalho (exemplificando, “poupar” tempo conversando no
cafezinho do ambiente de produção). O autor intuiu que a linguagem e a cognição, sempre
intermediadas por valores, seriam as questões cruciais nas duas esferas supracitadas e,
mutatis mutandis, doravante em seus demais trabalhos.
Depois de escrever diversas obras que seriam prolegômenos para a Teoria da Ação
Comunicativa
20
, Habermas, pesquisando sobre a “tecnologização” do mundo social, chega
a sua opus magnum. Com efeito, a Teoria da Ação Comunicativa
21
, cujo primeiro volume é
de 1981 e o segundo de 1983, teve enorme impacto no meio acadêmico
22
. No primeiro
volume Habermas expõe a racionalização da ação e do mundo social, suplementando as
reflexões com eruditos comentários sobre Marx e Weber, além de um singular diagnóstico
da modernidade, posteriormente ampliado no debate com Foucault e os neonietzscheanos e
pós-modernos, em 1984, em “O Discurso Filosófico da Modernidade”. Já o volume dois da
TAC apresenta uma incisiva crítica a Durkheim e a Parsons, temperadas com uma empática
sinopse das possibilidades de diálogo com os interacionistas.
Uma nova disjuntiva, um eixo antinômico para figurar ao lado das antinomias
clássicas e contemporâneas das ciências sociais
23
, dialetizadora por excelência, é proposta
18
Já permeadas por um arremedo de idéia de racionalidade comunicativa mediada pela linguagem.
19
De fato, os interacionistas seriam objeto de análises e citações problematizadoras por Habermas nos dois
volumes da Teoria da Ação Comunicativa.
20
Como podem ser mencionadas, sem a pretensão de esgotamento de todas, “Conhecimento e Interesse” e
“Para a Reconstrução do Materialismo Histórico”.
21
Doravante abreviada para TAC.
22
Em um seminário nos Estados Unidos, que congregava inúmeros teóricos destacados para comentarem a
sua obra, o autor chegou a escrever um interessante ensaio intitulado “A Reply to my Critics”, de quase uma
centena de páginas (ver Held e Thompson, Habermas – Critical Debates, The M.I.T. Press, 1982), que, na sua
terra natal, veio a se constituir em um terceiro volume da TAC.
23
São antinomias clássicas as que contrapõem micro e macro, e ação ou agência e estrutura; e
contemporâneas as que opõem individualismo metodológico e holismo metodológico (ou coletivismo) e,
afinal, subjetividade e objetividade.
Page 9
pelo autor: sistema versus mundo vivido ou mundo-da-vida (do alemão, na falta de
terminologia mais adequada, Lebenswelt). Para Habermas a noção de trabalho ampliar-se-
ia na noção de sistema e, por conseguinte, a interação se amplificaria para mundo vivido.
Ao demonstrar os processos contraditórios e dialetizadores entre as mencionadas
antinomias ou disjuntivas, o filósofo sublinha as explícitas tentativas do sistema para
“colonizar”
24
o mundo da vida, inclusive pela dominação tecnológica, todavia, de forma
diametralmente oposta, vislumbra salvaguardas de vascularidade nas diferenciadas
maneiras e modalidades em que o mundo vivido reage a essa tentativas do sistema.
Portanto, sua visão de síntese é bem mais otimista que as de Adorno e Horkheimer, já que
as saídas superadoras são identificadas no discurso e na linguagem. Tal como os
interacionistas, Habermas não vê o cidadão impotente, passivo, dominado e inerte, mas
capaz de reagir, criticar e se revoltar. Mais do que isso: com competência comunicativa
para enxergar o mundo de seu jeito.
Decerto, há muito de utopia nas proposições habermasianas. Todavia, fiel ao ideário
frankfurtiano, o autor não quer esvaziar a sua teoria da dimensão utópica. Sendo assim, a
síntese das tensões entre sistema e mundo-da-vida repousa na dimensão de uma
racionalidade dialógica, com os interlocutores permanentemente voltados para o consenso
fundado. Para Habermas o uso da razão dialógica , isto é, pautada pelo diálogo, efetuar-
se-ia por uma dimensão valorativa e ética, tendo como meta o já mencionado consenso
fundado, o que não pode ser erroneamente interpretado como impossibilidade de discussões
ou de visões plurais de mundo
25
e da realidade, entretanto, com a petitio principii de
debatê-las ao extremo. Os discursos seriam, via de regra, fundados.
Claro está que, para essa grandiloquente proposição teórica o autor estabeleceu seus
fundamentos em uma teoria da ação: a linguagem é coordenada interativamente; pode ser
ação comunicativa ou estratégica, embora a última vise a persuasão; sendo o mundo vivido
formado por mecanismos de compreensão mútua e de entendimento recíproco. É
necessário, deste modo, que os interlocutores sejam verazes e estabeleçam seus arrazoados
discursivos com clareza, cujas motivações atendam a razões válidas e sinceras para fazê-lo.
24
A expressão é do próprio.
25
Weltanschauungen, ou seja, visões de mundo.
Page 10
Porquanto, os interlocutores estariam reconhecendo suas intencionalidades, aceitando a
priori restrições ou regras normativas para que haja racionalidade comunicativa, de tal
modo que essas atitudes ajudam a legitimar as declarações e os atos discursivos,
bloqueando um tanto quanto (mas não totalmente) a persuasão e a retórica vazia e, por fim,
conferindo racionalidade, conduzindo prioritariamente à aceitação mútua e o entendimento
entre os agentes, ou então, ao debate sobre a aceitação e seu recíproco entendimento. O
objetivo de Habermas é o de desobstruir os processos comunicacionais de suas possíveis
“obstruções ou contaminações”.
Jurgen Habermas atribui potência racional ao agir comunicativo: padrões de
interação são formados, a interlocução torna-se prática, ainda que não necessariamente
objetiva, pois não esvazia a dimensão simbólica e fabulativa. Para o teórico, espaços sociais
são gerados na esfera pública. Ao comentar a esfera pública política, no volume dois de seu
“Direito
26
e Democracia” (Rio, Tempo Brasileiro), Habermas aponta as redes de opiniões e
seus fluxos comunicacionais, compondo uma estrutura do “agir comunicativo” orientada
para o entendimento, não sendo normativas como organizações e/ou instituições, mas
interagindo com o privado, isto é, a família, a religião, as associações civis, e congêneres. O
teórico social enxerga a liberdade de imprensa como um dos pilares desses fundamentos,
sendo a “mídia uma forma de esfera pública abstrata” (Habermas, 1997:107).
4. A Recepção e seus Efeitos.
O interacionismo, utilizado e levado adiante por diversos pesquisadores
progressistas e críticos, e a TAC, herdeira direta e tributária do pensamento também crítico
da Escola de Frankfurt, possuem na Teoria do Efeito Estético de Wolfgang Iser, caudatária
da Estética da Recepção desenvolvida por Hans Robert Jauss, uma notável “companheira
de viagem”.
27
Com efeito, se Jauss havia estabelecido a importância da experiência de afetação e
de impacto, como capazes de metamorfosear os afetos, as percepções, os sentidos, as
sensações e as emoções do receptor, lado a lado às alterações cognitivas e intelectivas
sempre proclamadas, Iser caminha para além dessas concepções, de tal modo que, ambos,
26
Facticidade e Validade – Para uma Teoria do Estado Democrático de Direito; esse o título original.
27
Ambas compondo a denominada Escola de Konstanz.
Page 11
podem ser, sem o receio do erro, estarem circunscritos no campo daqueles que defendem a
noção de um receptor não mais passivo ante as mensagens, porém ativo e deliberador por
excelência. Essa observação também vale para as reações às mensagens midiáticas, bem
como para qualquer tipo de texto, ou seja, escrito, oral, sob a forma de imagens, e muitas
outras. Em uma metáfora coloquial e em certo sentido “gasta”, “a gelatina mexe”, isto é, os
grupos sociais e o indivíduo não compõem massas inermes a serem moldadas na forma que
melhor for conveniente, ao celebrarem interações com textos e com a mídia.
Na obra máxima de Wolfgang Iser
28
o texto é visto como “sintoma” e o receptor
como co-produtor,
29
de forma que algumas intertextualidades se superam. Iser ultrapassa
certas nuances do new criticism , tais como, a identificação das relações entre a intenção do
autor e o texto; a relação entre a vida do autor e o texto; a tensão da cultura e da sociedade
com os próprios textos; as contradições e similaridades entre texto e contexto, e entre
aquele e a obra; a dialética entre o texto e o corpus teórico do autor, e, afinal, os
antagonismos entre o texto e as modalidades discursivas de seus contemporâneos.
Na nova implicação teórica e dialógica
30
consignada pelo autor da Escola de
Konstanz, o “efeito estético” é uma pré-figuração do leitor sobre o texto, formando uma
hermenêutica que, inclusive, sai do leitor em direção a obra e retorna a esse, em um efeito
looping. Uma hermenêutica que incide essencialmente sobre os espaços vazios,
caracterizando uma postura ativa do receptor, e inexoravelmente classificando as criações
estéticas com o sentido de obra aberta.
No volume 1 de “O Ato da Leitura” Iser pontifica: “um texto literário só produz
efeito literário quando é lido; os efeitos atualizam-se nos processos de leitura; o texto é, por
conseguinte, uma premissa de comunicação; o efeito estético deve considerar texto, leitor e
interação; intenção, valor e mensagem literária geram hermenêutica; a intenção engendra e
pré-figura a recepção e a interação; a estética da recepção trabalha na síntese entre tradição
e modernidade; plurivocidade, polissemia e polifonia consagram novas significações, ricas
textualmente; além da já mencionada idéia de que o texto pré-figura a recepção”.
31
Haveria,
28
Denominada “O Ato da Leitura – Uma Teoria do Efeito Estético” (Rio de Janeiro, Ed. 34).
29
Lembrando, em muito, a máxima de James Joyce no seu “Finnegans Wake”: “My consumers, are they not
my producers?”
30
Inevitável chamar a atenção para a terminologia, que aparece na mesma acepção proposta por Habermas.
31
Impressionante seqüência de caracteres descritos até a página 63.
Page 12
deste modo, um leitor implícito, que estabeleceria inevitavelmente novos “arranjos” com
as obras.
Por outro lado, no volume 2, Iser acrescenta que o texto é, simultaneamente, wishful
thinking e work in progress
32
. Um desejo pensante tanto do receptor (leitor), quanto do
autor, além de uma obra em progressão que, se certamente o é por parte do autor, poderá vir
a ser por parte do leitor (receptor). De uma leitura fechada (close reading) evoluir-se-ia para
uma leitura aberta (open reading). Esse já citado leitor implícito advogado por Iser define-
se, entretanto, como estrutura do próprio texto, sendo que o ato de leitura modificaria, por
assim dizer, as representações e significações. A obra passa a ser um jogo entre autor e
leitor, e se o texto gerou impacto e afetação, é porque realizou sua
33
promessa redentora de
felicidade e, desta maneira, de efeito estético.
A interessante obra de Iser inspirou vários teóricos e comentadores, inclusive no
Brasil, em uma recepção tão intensa e diversificada quanto as que tiveram Habermas e os
interacionistas. Devido ao formato desse ensaio curto o único comentador a ser tratado, tal
como anunciado na introdução, é Hans Ulrich Gumbrecht.
Em uma de suas obras, intitulada “Corpo e Forma – Ensaios para uma Crítica Não-
Hermenêutica” (Rio de janeiro, EdUERJ, 1998), Gumbrecht sinaliza para as operações de
desreferencialização, destemporalização e destotalização, essencialmente pós-modernas.
Para o autor o texto não é só jogo, mas também mapa, leitura e território, muitas vezes
dizendo por aquilo que não está escrito (o que também foi rubricado por Iser). Gumbrecht,
salvaguarda de Iser, aponta que o fato de se estudar o leitor não significa, como condição
sine qua non , que o texto ou o autor devam ser abandonados.
Gumbrecht sinaliza para a idéia do texto como autopoiese, precisando, pois, ser
refletido como sistema e dentro de uma teoria geral, que por ele é denominada de teoria
geral da ação cognitiva, incorporadora, outrossim, de uma fenomenologia da leitura e, ao
mesmo tempo, de uma sociologia da ação.
34
Gumbrecht acredita que há uma crítica
literária “encravada” na sociologia da comunicação, que também pode se incorporar em
uma teoria da ação comunicativa, tal como proposta por Habermas ou, do contrário, na já
mencionada teoria geral da ação cognitiva. De fato, no início dessa obra o autor referira-se
32
Desejo pensante, e obra em progressão.
33
Conforme teorizado às páginas 9 e 82 do segundo volume.
34
Gumbrecht debate em toda a obra com as noções de Maturana e de Luhmann, mencionadas no parágrafo.
Page 13
a “integração desta nova forma de crítica literária na sociologia da comunicação que está,
ela própria, em processo de constituição” (Gumbrecht, 1998:24).
É digno de nota que a idéia de uma incorporação da crítica literária em uma
sociologia da comunicação desloca, no próprio campo semântico das ciências sociais, a sua
constituição disciplinar, já que nos termos propostos por autores como Pierre Bourdieu,
Theodor Adorno e Raymond Williams, tanto a crítica literária, com a crescente autonomia
disciplinar da lingüística, quanto a sociologia da literatura deveriam ser incluídas, no que
tange à sua formação disciplinar, no campo da sociologia da cultura.
35
Essas observações encerram o caminho desse artigo. Porém, fica a certeza de que
outras “veredas” poderão ser abertas e até mesmo complementadas.
5. Conclusões para iniciar um debate.
As três teorias possuem muito em comum. Mais ainda, em diversas passagens os
autores mutuamente citam-se, com menor comprovação das mesmas entre os
interacionistas, em parte pelo período histórico de apogeu da corrente, ainda que seus
seguidores o façam.
As noções de interação, representação, identidade, intersubjetividade, razão
dialógica, racionalidade comunicativa, consenso fundado, esfera pública, recepção,
impacto, afetação, efeito estético, pré-figuração, ou mesmo as idéias de vazio hermenêutico
ou polifonia e polissemia textual, sem descartar o conceito de autor como co-produtor, são,
indubitavelmente, complementares. Claro está que, em alguma medida, se diferenciam. A
ciência não é um amálgama permanente. Certas clivagens são epistêmicas e ideológicas.
Cumpre observar que as teorias da comunicação, e mesmo o escopo da disciplina,
beneficiam-se imensamente desse debate, por razões paradigmáticas, ou seja, que
engendram-se nas epistemologias, nas teorias, nos métodos, nas técnicas, nas empirias, nas
polêmicas intelectuais, científicas e culturais, na hermenêutica e, não se pode deixar de
lembrar, também em seu caráter heurístico. E obviamente nas modalidades do discurso
comunicacional.
35
Nas respectivas obras “As Regras Da Arte”; “O Ensaio como Forma”; e “Cultura”, já editadas há algum
tempo em português.
Page 14
Finalmente, um pormenor a ser salientado é que as associações dessas teorias com a
teoria da comunicação resultam em ainda mais “munição” de combate, de afirmação de
palavra e de tomada de posição, em relação (ou contra) a teorizações marcadamente
conservadoras, como aquelas afeitas ao behaviorismo, ao funcionalismo, a teoria da escolha
racional, as teorias calcadas no individualismo metodológico, e até uma certa “trilha” de
verniz cog sci
36
que esconde pretensões bem pouco nobres de setores da neurociência, sem
falar na celebração hedonista, epicurista e com “tinturas” new age do conexionismo e das
suas promessas incorporadoras da sociedade em rede, embutidas em formulações
semânticas pretensiosas, como sociedade da informação ou sociedade do conhecimento,
negligenciando seu viés ideológico e/ou etnocêntrico.
6. Referências Bibliográficas.
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